domingo, 22 de abril de 2018

Kiwis. O apelo da terra como força para mudar o rumo de uma vida Carla Cunha vai começar com kiwis.


 Investigadora admite vir a viver da produção de frutas e assim evitar o abandono dos terrenos 

É doutorada em Biologia e exerce investigação em Engenharia Biomédica na Universidade do Porto, mas essas circunstâncias não demovem Carla Cunha de um dia viver apenas da agricultura. Por agora, prepara simplesmente a mudança. O clique aconteceu quando recebeu um prémio. O apego à terra tem conduzido o sonho de não deixar cair no abandono os terrenos da família, em Paredes. Para os revitalizar, decidiu, juntamente com o marido, investigador formado em Engenharia Agrónoma, começar com uma plantação de kiwis, de dois hectares, que deverá proporcionar no próximo outubro a primeira colheita "profissional". 

"Sozinha nunca me teria aventurado. É preciso força física e outro tipo de força. Isso na agricultura não pode ser descurado", observa Carla Cunha. Entretanto, candidatou-se à Academia do Centro de Frutologia Compal, que atribui bolsas de instalação para fruticultores, tendo sido um dos três vencedores na última edição. Do mérito resultou a atribuição de uma bolsa no valor de 20 mil euros. "Isto foi o início de uma atividade mais séria e a agricultura pode deixar de ser um part-time, para ser um investimento mais concreto. 

O prémio significou o ponto de viragem na nossa exploração", prosseguiu. Com o acréscimo financeiro proporcionado pelo prémio, que representa metade do investimento total previsto, Carla Cunha prepara a expansão do projeto. A ideia é agora apostar no cultivo adicional de marmelos e dióspiros, embora tenha de esperar mais dois ou três anos até ver o retorno do investimento. As novas plantações deverão ocupar 4,5 hectares, junto dos kiwis, tudo em Paredes, na propriedade familiar. A própria mão de obra tem sido "recrutada" na família, incluído as filhas gémeas de oito anos. As contratações de serviços técnicos têm sido pontuais. Para produzir os primeiros kiwis, 

Carla Cunha optou pelo modo de produção integrada, mas a ideia é que evolua para a certificação da agricultura biológica, por ser o sistema que, em sua opinião, "mais respeita a natureza" e aquele que está mais de acordo com as suas convicções. "Acreditamos que podemos dar a melhor fruta às nossas filhas, sem preocupação. Isto é qualidade vida", justifica. Por esse motivo, tenciona alargar a produção biológica às plantações de marmeleiros e diospireiros. Quanto à comercialização, para já, perspetiva colocar a produção de kiwis à venda através da Cooperativa Agrícola de Felgueiras, numa quantidade que ainda tem dificuldade em antever, mas que espera generosa.

“Produzir vinho à porta fechada acabou”


22.04.2018 às 10h00

Em dezembro, Paul Symington faz 65 anos e deixa o comando do grupo familiar. Para já celebra o Porto Vintage 2016


História da família Symington, agora apostada em explorar o enoturismo

No mundo dos vinhos, um produtor pode guardar alguns segredos do seu negócio, mas tem de abrir as portas ao público para mostrar o que faz e como faz — é o que defende a Symington Family Estates (SFE). Paul Symington, presidente deste grupo familiar líder nas categorias especiais de vinho do Porto, concretiza: "Produzir vinho à porta fechada acabou. Temos de mostrar o que fazemos. Sabemos que o enoturismo é um palco único para as marcas."

A aposta da SFE no enoturismo vai, assim, continuar depois do investimento de mais de €6 milhões feito nos últimos três anos entre o Pinhão e Gaia. Até à Páscoa do próximo ano, inaugura restaurantes nas Caves da Cockburn's, em Gaia, e na Quinta do Bomfim, no Pinhão, que investiu €2,9 milhões para abrir um novo centro de visitas em 2015, recebe 30 mil pessoas por ano e foi a vencedora Global na categoria de Serviços de Enoturismo dos prémios Best of Wine Tourism 2017. Mas há novos projetos em estudo nesta área para aproveitar o potencial das 27 quintas do grupo no Douro.

"Reconhecemos a enorme importância do enoturismo. Os resultados têm superado as expectativas e, a isso, juntamos a parte não tangível da notoriedade", justifica Paul, admitindo que a Quinta do Vesúvio, já na rota das viagens do histórico comboio presidencial ao Douro, é uma escolha possível para crescer neste segmento que rende €6 milhões ao grupo.

A Quinta Fonte Souto, como acaba de ser batizada a propriedade com 43 hectares de vinha comprada no Alentejo, no ano passado, também pode abrir portas ao enoturismo quando os primeiros vinhos feitos aqui, a 400 metros de altitude, no Parque Natural da Serra de São Mamede, chegarem ao mercado, em 2019.

A DITADURA DA QUALIDADE
Mas enoturismo, na Symington, continuará a significar apenas visitas e provas. "As dormidas são outro campeonato. Nós somos uma empresa de vinhos", garante Paul, à espera de receber mais de 100 mil turistas nas caves da SFE em Gaia: pela Graham's, onde o grupo investiu €2 milhões, passam 55 mil pessoas. Na Cockburn's, que absorveu €1,2 milhões na renovação do espaço, no ano passado, e passou a mostrar ao público os segredos da arte da tanoaria (na foto) são esperados 50 mil visitantes em 2018.

A confirmar a atenção dada ao vinho, Paul Symington fala da nova adega da Quinta do Ataíde, no Vale da Vilariça, dedicada aos vinhos DOC Douro da empresa, presente neste segmento com as marcas Altano, Quinta do Ataíde, Quinta do Vesúvio e P+S, este em parceria com Bruno Prats. Será um investimento na ordem dos €6 milhões, cuidadosamente preparado pela equipa de enologia liderada pelo seu primo Charles, que esteve esta semana a visitar adegas em Espanha para preparar o projeto.

No Douro, a família tem nove adegas e Paul sabe que "à primeira vista, esta multiplicação parece ser uma opção ineficaz, como diria qualquer consultor", mas ele insiste na virtude da aposta "ditada pela qualidade". A Symington tem duas adegas grandes, nas quintas do Sol e do Bomfim, onde vinifica as uvas que compra a mais de 1200 lavradores do Douro, e tem mais sete pequenas adegas para fazer os seus melhores vinhos, nas quintas mais importantes das marcas da empresa. "Se as uvas tivessem de ser transportadas durante duas horas, a temperaturas elevadas, durante a vindima, até uma adega central, a qualidade final, na garrafa, não seria a mesma", explica.

"Os bons resultados só têm uma explicação: a aposta constante na qualidade", diz Paul Symington. "No vinho do Porto, os dias do negócio assente em grandes volumes de vinho corrente estavam contados e nós soubemos ler esses sinais", sublinha o presidente deste grupo que leva os seus rótulos até 100 países.

A marca deixada pela 4ª geração dos Symington na empresa fundada pelo bisavô de Paul, Andrew James Symington, "é a luta constante para subir a fasquia na qualidade e no valor". É assim que a quota dos vinhos de categorias especiais como os Reserva, os Tawny, os LBV ou os Vintage nas vendas da SFE chegou aos 60%, com o valor deste segmento a crescer €10 milhões em cinco anos. Ao mesmo tempo, o investimento contínuo na terra tornou a família no maior proprietário de vinhas do Douro, deu-lhe "ancoras para os seus vinhos" com controlo total da vinha e de todas as decisões sobre poda, tratamentos, vindimas. Mais: por ano, sem contabilizar as aquisições que têm sido feitas, o grupo investe €5 milhões nos seus projetos, €1,5 milhões dos quais na renovação de vinhas.

VINTAGE NA DESPEDIDA
"É preciso ter coragem, arriscar, assumir uma visão de longo prazo. Não fomos os únicos a fazer isto, mas fomos mais longe do que os outros. Olhando para trás, sei que a aposta na terra foi uma das melhores coisas que fizemos", afirma Paul Symington, já a preparar a passagem de testemunho no final do ano, quando fizer 65 anos.

A tradição na família ditava esta saída e Paul quis manter a regra. Para ele, é fundamental dar lugar aos novos, até porque a quinta geração já começou a entrar na Symington.

Deixa a presidência da SFE ao primo Johnny e a direção-executiva ao primo Rupert. Os principais desafios que o grupo tem agora pela frente são a inovação, a atenção aos mercados, a continuidade da componente familiar na viticultura e enologia e a qualidade, sintetiza. 
E a hora é de festa. A SFE acaba de declarar 2016 ano de Porto Vintage para os vinhos produzidos nos lagares da Graham's, Cockburn's Dow's, Warre's e Quinta do Vesúvio.

egunda-feira, no lançamento oficial dos seus vintage, no coração do Douro, estará um primeiro grupo de 20 convidados. Seguem-se as apresentações nos Estados Unidos e em Londres. Depois, fica tudo nas mãos do mercado, mas a tradição mostra que os consumidores reconhecem a qualidade superior destes vinhos. "Um ano vintage tem reflexo positivo na notoriedade e nas vendas", diz.

Um exemplo? Na última declaração de Porto Vintage, em 2011, quando o Dow's da família foi considerado o melhor vinho do ano pela "Wine Spectator", o preço da garrafa subiu duas vezes e meia comparativamente ao valor de lançamento. Já no conjunto da fileira do vinho do Porto, as vendas totais aumentaram €10 milhões.

Presidente apela por "luta crucial" contra redução do orçamento europeu

O Presidente da República considera que Portugal sairia muito afetado com a redução do orçamento comunitário pós 2020.

O Presidente da República defendeu, em Santarém, que Portugal tem uma "luta crucial" pela frente nos próximos meses, que deve mobilizar todos "para combater contra o risco de diminuição do orçamento europeu".

Sublinhando que Portugal seria "muito afetado" com uma redução do orçamento comunitário pós 2020, Marcelo Rebelo de Sousa disse, no encerramento do seminário "Água, Um Recurso Estratégico", promovido pela Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que o país "ganharia" em "travar e ganhar" esta batalha "o mais cedo possível", não deixando para depois das eleições europeias e "para a nova Comissão uma definição cheia de imponderáveis e de incógnitas".

O Presidente apontou como "cruciais" as próximas semanas, até à cimeira de junho, lembrando que, antes disso, estará em Santarém a participar precisamente num encontro que tem esse assunto por tema, e que decorrerá no âmbito da Feira Nacional da Agricultura (de 02 a 10 de junho).

Marcelo Rebelo de Sousa recordou que o debate a travar em Bruxelas é essencial para o investimento público e privado também no domínio da agricultura e que o "tipo de linguagem, de discurso, de expectativas" serão "completamente diferentes" conforme o seu desfecho.

Para o Presidente, o debate em Bruxelas pode não ser "tão intenso e apelativo" como o que é feito na Assembleia da República e na confrontação entre Governo e oposições, "mas, neste momento, é mais importante para muitos efeitos, mais urgente".

Encerramento do seminário "Água, Um Recurso Estratégico"

Marcelo Rebelo de Sousa falou depois de ouvir o presidente da CAP, Eduardo de Oliveira e Sousa, a considerar "imperioso" que se crie no país uma 'task force' em torno das questões da água e a "lançar o desafio" da "construção de uma visão" para o setor, "uma estratégia a 30 ou mesmo a 50 anos".

Pedindo o patrocínio do chefe de Estado para este "compromisso nacional", Oliveira e Sousa afirmou que a CAP quer encontrar "uma solução para Portugal" em conjunto com os outros setores da economia, com os organismos oficiais e com as Universidades.

Marcelo Rebelo de Sousa disse aos cerca de 300 participantes no seminário que juntou especialistas de várias áreas que a reflexão sobre o armazenamento de água "não é apenas um assunto do mundo agrícola", pois afeta o abastecimento das populações e é negativo para outros setores, como a indústria e o turismo.

Defendendo que "não é por haver agora algumas albufeiras mais cheias" que o debate deve esmorecer, o Presidente apelou a que se comece já a preparar o futuro, sendo "crucial armazenar e reter a água das chuvas e dos rios", para enfrentar os períodos em que ela falta.

Para o chefe de Estado, é preciso uma "visão nacional transversal", reconhecendo, contudo, a dificuldade em "converter princípios em orgânicas, estruturas e processos".

Exortação à boa relação entre Portugal e Espanha

Marcelo Rebelo de Sousa exortou ainda a que se aproveite a "relação excelente" existente atualmente com Espanha para uma "articulação cada vez mais intensa", no âmbito dos acordos existentes entre os dois países para gestão dos rios transfronteiriços.

Considerando que "a escassez de água não é uma fatalidade", o Presidente admitiu que, "mais cedo ou mais tarde virá a discutir-se a viabilidade económica e financeira, ou não, da construção de centrais de dessalinização modernas, eficientes e geradoras de energia ou a pensar-se ainda com mais profundidade na criação de reservas de água em pontos vitais do território nacional".

O seminário realizado hoje pela CAP nas instalações do Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA) debateu, ao longo do dia, questões como a gestão dos recursos hídricos, a importância das águas subterrâneas ou o uso da água para a agricultura, tendo sido apresentado o Projeto "Mais Tejo", que prevê a construção de pontos de retenção de água neste rio.

À tarde, António Carmona Rodrigues, da Universidade Nova de Lisboa, moderou uma mesa redonda sobre como "Conciliar usos múltiplos dos recursos hídricos", que contou com representantes da Águas de Portugal, da indústria, do turismo, da agricultura, da EDP e da Liga para a Proteção da Natureza.

Luís Mira. "As florestas não são nenhuma cozinha. O que é limpar? Aquilo não está sujo"


O secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal diz que "o setor agrícola era tido como um velho com uma enxada na mão e com o arado e hoje não é nada disso"


No dia 26 vai comemorar-se o Dia da Produção Nacional. O que se pode esperar deste dia?

É necessário chamar a atenção dos consumidores portugueses para a produção nacional e para o facto de ser importante consumir português, não só por razões económicas, mas também por razões sociais e ecológicas. Ao consumirmos produtos portugueses não estamos a consumir produtos do outro lado do mundo que, muitas vezes, têm uma pegada de carbono muito grande. As pessoas, de uma forma geral, perderam a noção do ciclo natural das culturas, principalmente no caso das frutas. Quando se consome cereja no Natal ou melão em fevereiro, esses produtos não podem vir de uma produção portuguesa. Nas grandes superfícies há atualmente todas as frutas durante todo o ano e como têm a indicação do país, as pessoas sabem muito bem o que estão a comprar.

O preço também pesa na decisão…

Sem dúvida, mas muitas vezes, as frutas que vêm da outra parte do mundo são muito mais caras e não é o preço que as impede de tomarem essa decisão. Vou-lhe dar um exemplo. Qual é a fruta que há em quase todos os restaurantes em Portugal, desde o mais caro ao mais modesto? Manga e abacaxi. Se pedir uma maçã ou uma pera, a maioria não tem. Quanto muito têm pera com vinho tinto. E porque é que isso acontece? Porque os consumidores querem. Caso contrário, os restaurantes não tinham manga na lista e não é barata. Tudo isto está relacionado com a perceção dos consumidores e aí temos um longo caminho para evoluir. Basta ir aos nossos vizinhos espanhóis, para eles tudo o que é espanhol é bom, não interessam os outros. 

As grandes superfícies não influenciam nessa decisão?

Isso é uma questão de circuito comercial, se os consumidores deixarem de comprar fruta espanhola nos hipermercados, deixam de a ter lá.

Nota que os consumidores estão mais sensíveis para esta questão?

Acho que estão mais sensíveis. Até as novas gerações estão mais sensíveis, nem que seja por razões ecológicas ou de saúde, ou por outra razão qualquer. Mas a questão da educação também influencia muito. Por exemplo, se for à faixa dos 50 anos, a maioria tem whisky em casa, mas não tem vinho do Porto, que é uma bebida nacional, idolatrada pelos estrangeiros e que nós nem valorizamos. Ou seja, temos uma coisa que é nossa e preferimos o que é dos outros, quando os outros preferem o que é nosso. Não faz sentido, isso é uma questão cultural, principalmente quando há poucos anos foi considerado o melhor vinho do mundo, não podemos alegar que é falta de qualidade. Mas tenho uma explicação: antes do 25 de abril só havia aguardente, vinho do Porto e bagaço, só as pessoas que tinham possibilidade de ir ao estrangeiro é que compravam whisky. Quando se deu o 25 de abril, abriu-se esse mercado e, como é natural e normal, as pessoas passaram a querer ter o que não tinham. E se perguntar a essas pessoas de 50 anos porque é que bebem whisky e não bebem vinho do Porto nem sabem responder. Isso está muito relacionado com as raízes das pessoas, com a própria postura que o português tem face àquilo que é produzido cá. Basta pensar que tínhamos a maior onda do mundo e quem a descobriu foi um americano, enquanto os surfistas portugueses iam para o Havai. 

Portugal é agora um destino da moda. Os produtores portugueses não poderão beneficiar dessa notoriedade?

Acho que podemos beneficiar um pouco, mas como disse é uma moda, não é eterna e rapidamente muda. É bom aproveitarmos enquanto estamos na moda porque há de chegar uma altura em que esta passa para outro. Claro que para já é benéfico por causa dos produtos que exportamos, como a fruta, o vinho, o azeite. Os turistas gostam de Portugal, os portugueses são simpáticos, o clima é bom, a comida é fantástica, os vinhos são baratos. Lisboa é bonita, o Porto também e o próprio país apesar de ser pequeno tem a vantagem de ser diverso. O pior que pode haver para um turista é fazer mil quilómetros e estar sempre tudo igual. Em Portugal isso não acontece, em quase cada 50 quilómetros a paisagem muda. 

E as empresas do setor não podiam aproveitar mais?

Acho que estão a aproveitar. As exportações do setor agroalimentar estão a crescer mais do que o crescimento da economia. Neste primeiro trimestre cresceu 6 ou 7% e tem vindo a aumentar nos últimos anos. 

Uma das novidades do setor diz respeito ao recurso da tecnologia. O que mudou?

Estamos a assistir a uma verdadeira revolução. O setor agrícola era tido como um velho com uma enxada na mão e com o arado e hoje não é nada disso. Claro que nos pequenos produtores que só produzem para eles não houve espaço para aderirem a grande tecnologia, mas nas empresas utiliza-se a tecnologia do mais sofisticado que existe. Recorrem a drones, a sensores de rega, a regras de precisão, a tablets para controlar a humidade do solo, tudo o que é de mais sofisticado. Vi no outro dia um esmagador de uva que separava os bagos da uva pelo peso e pela cor, ou seja, tinha uma cromatografia e pelo peso de bago separava todos aqueles que tivessem o mesmo grau de maturação. Vai resultar num vinho que nunca foi feito no mundo, era impossível alguém escolher bago a bago e, pelo peso e pela cor, conseguir fazer um lote perfeito. Isso só é possível através do recurso à informática e à tecnologia. Também as técnicas de extração das azeitonas e as técnicas de produção do vinho são agora muito diferentes. Há pessoas, mais uma vez com 50 e tal anos, que ainda hoje dizem que não bebem vinho branco porque faz dores de cabeça, mas isso acontecia há 30 ou 40 anos atrás, porque recorria-se a produtos químicos. Não havia tecnologia para fazer um vinho branco sem que oxidasse e, por isso, recorria-se a determinados produtos. Alguns exageravam no uso desses produtos e era isso que fazia as tais dores de cabeça. Hoje isso não existe, os vinhos são feitos com sumo de uva pasteurizada, em baixas temperaturas, num ambiente totalmente diferente. O mesmo acontece com o leite que sai da teta da vaca e entra no refrigerador em vácuo sem tocar numa partícula de ar. E também na parte da produção temos técnica e tecnologia que nos permite usar muito menos água na rega e sermos verdadeiramente cirúrgicos, usar muito menos adubo, muito menos pesticida ou só usar quando é verdadeiramente necessário porque existem meios de diagnóstico e meios de conhecimento que não existiam há 30 anos. Havia uns desenhos animados, a família Prudêncio, que apareciam na televisão, onde se dizia ao agricultor que as embalagens de pesticidas não podiam ser deitadas para o rio, tinham de ser queimadas e enterradas, que hoje é um crime ambiental. Isso demonstra bem a evolução que todo este setor teve. 

Mas a tecnologia foi entrando a pouco e pouco...

As tecnologias vieram também no setor agrícola permitir um conjunto de inovações brutais. Hoje já há tratores que já são guiados sem condutor e são guiados por um tablet. A agricultura caracteriza-se por uma atividade física forte, com mãos na terra, mas atualmente isso não existe. As atividades são feitas por um trator com cabine, com ar condicionado, com computador ao lado e quem é hoje empresário tem de utilizar alta tecnologia. Passámos da enxada para o engenheiro químico que utiliza todas as ferramentas que tem ao seu dispor: internet, câmaras de vídeo, sensores, gestão de base de dados. 

Passámos de um trabalho de mão suja para bata branca?

Exatamente. Hoje entra num lagar e encontra pessoas de bata branca. É por isso que é possível ter um azeite com um aroma e sabor que nunca teve na vida porque é usada uma determinada técnica para extrair as azeitonas. O mesmo acontece com o vinho. Alguma vez se pasteurizou o vinho? Nunca e agora é para não se adicionar qualquer produto químico. O vinho evoluiu tanto que tem o melhor do vinho novo e o melhor do vinho velho e é possível fazer as duas coisas. Antigamente tinha-se de guardar os vinhos para serem velhos, do ponto de vista do negócio isso não era bom porque os produtores tinham de esperar cinco, seis ou sete anos e os consumidores também não têm condições para estarem a guardar vinho debaixo da cama. As casas são pequenas e não apresentam condições de temperatura e de humidade. 

Mas isso implica perda de postos de trabalho?

A mão-de-obra na agricultura tem vindo a diminuir, mas ganhou trabalhadores mais especializados e com maior formação. Por exemplo, para apanhar azeitona era necessário um rancho de mulheres com varas na mão e outras para apanhar do chão, agora não é preciso ninguém. É tudo feito com uma máquina que trabalha dia e noite. E mesmo que fosse feito da forma antiga não havia gente suficiente para o olival que existe no Alentejo. 

As oliveiras são agora mais pequenas…

Adaptou-se para que tudo seja feito de forma a que as máquinas possam apanhar. 

E as outras?

Continuam a exigir um custo brutal. Um quilo de azeite apanhado de forma artesanal custa cinco ou seis vezes mais do que se fosse apanhado pela máquina. E o azeite que é apanhado desta forma mais moderna não é pior. Só se apanha de forma tradicional se for para conservas porque as azeitonas não podem ser tocadas por aquela máquina. É o que acontece com as vinhas do Douro, as uvas continuam a ser apanhadas à mão, mas depois isso tem uma implicação no preço, tornando o vinho muito mais caro. 

Mas há quem critique os olivais estarem quase todos nas mãos de espanhóis...

E quantos bancos portugueses estão na mão dos espanhóis? E os bons jogadores portugueses jogam aonde? Os olivais não são todos dos espanhóis. Eles começaram a investir, trouxeram a tecnologia, mas a grande maioria já vendeu. Mas as empresas até podem ser espanholas, mas o azeite é português e é em Portugal que criam os postos de trabalho. A agricultura não é um estado à parte dos outros setores. Se na banca, se nas construtoras, nos seguros, os espanhóis têm comprado muitos dos ativos portugueses então na agricultura não? E percentualmente até considero que é muito inferior àquilo que se verifica nos outros setores.

O INE diz que o setor perdeu mais de 100 mil mulheres desde a entrada da troika...

Isso deve-se ao facto de o setor se ter vindo a transformar. Antigamente não havia máquinas para apanhar uvas, hoje há, antigamente não havia máquinas para apanhar azeitona, hoje há. Ninguém aposta num olival sem ser desses, caso contrário, onde é que arranjava pessoas para apanhar a azeitona? Tudo isto leva a que a necessidade de mão-de-obra seja cada vez menor.

E quando havia essa necessidade também era mais difícil contratar pessoas…

Além do interior do país estar desertificado, muitas das atividades agrícolas são sazonais e não permitem contratar uma pessoa permanentemente. Antigamente havia mão-de-obra para tudo porque as condições de vida eram muito más e as pessoas também ganhavam muito mal, o que permitia ter sempre muita mão-de-obra. Mas quando as pessoas exigem outro nível de vida, isso já não é possível. Se há uns anos uma empresa podia ter três ou quatro trabalhadores a tempo inteiro, hoje se tiver é um e, por norma, é o próprio dono. Os agricultores tiveram de mecanizar porque não tinha rendimentos para pagar salários a três ou quatro trabalhadores. Há 30 anos isso era possível porque os salários eram baixíssimos. 

Mas nos últimos anos apareceu uma geração mais nova de agricultores…

O setor à medida que é mais rentável e menos físico tem outra atratividade, outro sex appeal. 
Passámos por um período de seca. Estas últimas semanas de chuva vêm ajudar a produção?
Passámos por um período de seca muito severa nos últimos três anos. Ainda não se foi embora, mas já deu para recuperar as reservas de água, as barragens e as florestas. Só uma pequena parte do país é que consegue ter regadio, a outra não. As alterações climáticas começam a fazer sentir o seu efeito. No mês de março choveu imenso, com temperaturas abaixo da média, se calhar daqui a 15 dias vem o calor e passamos de uma situação extrema para outra. 

Ainda assim há culturas que são beneficiadas pela seca, como a amêndoa…

Todas são afetadas. As culturas que não são de regadio tiveram uma grande quebra, as que são de regadio se agora não tivesse chovido não era possível fazer nada. Alguns agricultores nem sequer cultivaram porque só começou a chover em março e já tinham tomado outra decisão porque não podiam estar à espera desta situação anormal. Muitas pessoas já não acreditavam que viesse a chover, nem era expetável que isso acontecesse. Tem de chover na altura normal, se chover em junho destrói as vinhas, os cereais, as cerejas. 

Os agricultores não deveriam adaptar-se a esta mudança?

O setor já está a adaptar-se, a fazer mitigações desta situação e a ter um tipo de gestão que preveja com mais frequência a ocorrência destes fenómenos. Só há duas soluções: ou muda a altura ou muda de cultura. Estas variações sempre existiram, demoravam era uma geração ou duas a consolidarem-se. Se calhar daqui a 20 anos algumas das castas de uvas que existem no Alentejo têm de ser mudadas por outras com mais resistência. Se calhar daqui a 40 anos a pera rocha no Oeste não pode ser produzida porque não tem temperaturas baixas e é necessário ir mais para norte. Essas consequências já são visíveis com a produção da castanha ao registar uma quebra de produção na ordem dos 60% devido à falta de chuva. Mas mesmo com a falta de chuva há sempre uma solução que é regar, com falta de frio é que não há solução, pois não posso pôr um frigorífico ao lado de cada planta. 

O setor também foi bastante penalizado pelos incêndios do ano passado…

O governo auxiliou alguns agricultores, outros não conseguiu. Esteve cá uma pessoa que perdeu tudo o que tinha e recebeu cinco mil euros, não compensa o que perdeu. Está patente junto de todos os portugueses que houve uma enorme falha da Proteção Civil que deu origem a mortes de muitas pessoas. O fogo faz parte do clima mediterrânico, vai haver sempre fogos, o que não se pode é repetir o número de mortes de pessoas, nem as situações que assistimos. Mas quando se repetirem situações de alta temperatura, de baixa humidade e de ventos fortes, o país vai sempre arder.

Tem o levantamento de quantos agricultores foram afetados?

O Ministério da Agricultura tem esses dados. O incêndio de junho afetou poucos agricultores porque era uma zona muito florestal, no de outubro houve mais.

Como está o ponto de situação dos pagamentos das indemnizações dos agricultores afetados?

Essas indemnizações começaram a ser pagas pelo mecanismo do Ministério da Agricultura e algumas foram provenientes do Orçamento do Estado. 

O ministro da Agricultura já veio admitir que o governo está disponível para apreciar novas candidaturas a apoios para agricultores afetados pelos incêndios se demonstrarem que não concorreram por motivos de "força maior"…

Quanto mais pessoas forem ajudadas melhor. Mas não nos iludamos, não vão ser todos ajudados. A ajuda foi importante, mas podia ter sido sempre mais. Muitos dos agricultores que foram afetados não têm neste momento nada, porque ardeu tudo, incluindo máquinas. E estamos a falar de muitas pessoas com 60 anos ou mais e, por isso, não é fácil começar do zero, nem sequer têm motivação. 

O governo deveria dar mais benefícios ao setor?

O dinheiro é sempre pouco para a dimensão da catástrofe e para os prejuízos que provocaram. Quinhentos mil hectares ardidos é muito, acrescido dos prejuízos que houve com fábricas e casas ardidas. Portugal não é um país rico. Podemos dizer que era possível dar mais, mas temos de ter em consideração aquilo que são as disponibilidades que o governo tem e que o país tem. O que não é aceitável foi o que aconteceu, a segurança dos cidadãos que é uma das funções de um Estado de direito não foi minimamente conseguida. E depois dizer que o problema deveu-se à falta de limpeza é igualmente grave. A limpeza de uma floresta é uma utopia de um urbano. O governo, como não sabe o que está a fazer, mandou limpar terrenos até dia 15 de março. As pessoas que limparam quando chegarem a junho já vão ter outra vez a erva grande. E os técnicos dizem que as distâncias que foram colocadas estão erradas, pois consideram que, quanto mais juntas as árvores estiverem, menos cresce erva em baixo. 

E o pânico que se gerou levou alguns proprietários a abaterem árvores de fruto e de jardim...

Assistimos a muitos disparates porque a forma como as pessoas foram contactadas também foi um disparate. As pessoas deram os seus dados para serem contactados pelas finanças, não deram os seus dados para serem intimidados e ameaçados com multas se não cortassem as árvores. Conclusão, muitas pessoas não compreenderam bem a lei ou não leram aquilo com atenção ou não se aperceberam que isso só se aplicava às áreas florestais e não às áreas agrícolas e, como tal, cortaram tudo à volta das suas casas. O governo devia ser responsável por essas coisas e como não há oposição essas coisas passam e não acontece nada. Foi tudo uma estupidez e depois viu-se o primeiro-ministro e os outros elementos do governo a fazer uma limpeza em quatro sítios e acha-se que a limpeza já está feita. As florestas não são nenhuma cozinha. O que é limpar? Aquilo não está sujo. E daqui a dois ou três anos está tudo igual. Tudo isso tem um custo e a floresta não dá rendimento para suportar esse custo. 

Mas há a questão de terrenos abandonados…

Isso também é uma utopia muito grande. Na realidade os terrenos abandonados andam à volta dos 100 mil hectares. Se tem um pequeno terreno que não é possível rentabilizar o que é que faz? Se tivesse numa situação dessas e me fossem multar por falta de limpeza oferecia o terreno. É como quem não percebe do assunto e passa por um terreno e acha que é tudo muito bom para se fazer qualquer coisa. Aliás Salazar fez essa asneira, impôs a cultura do trigo no Alentejo, fizeram-se verdadeiras barbaridades porque cortaram-se sobreiros e azinheiras para produzir trigo e, o que se está a ver agora é que o concelho de Beja, que era o grande celeiro de Portugal, está todo transformado num olival. Temos um clima mediterrânico, o trigo não é uma cultura propícia ao nosso clima. Temos um clima mediterrânico que é bom para as culturas mediterrânicas. É claro que Portugal é capaz de produzir trigo, mas sempre com baixa produtividade. 

Que balanço faz do ministro Capoulas Santos?

É um ministro que conheço bem há muitos anos. É uma pessoa conhecedora do setor, mas tem as limitações impostas por um acordo que foi feito pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista. Isso limita a atuação do ministro, como também limita todos os outros, assim como o do próprio primeiro-ministro. Mas nas questões europeias é conhecedor da matéria e na negociação da próxima PAC acho que vamos ter condições para conseguir um resultado final que espero que venha a ser positivo para o país.

Acordo com a esquerda limita em quê?

Há algumas matérias que faziam parte do acordo, nomeadamente a questão da plantação dos eucaliptos que é um assunto que está mal contado. É um mito que o eucalipto estraga o terreno, é um mito que o eucalipto beba muita água ou que seca tudo o que está à volta. Se se puser o mesmo número de árvores, e em vez de eucaliptos optar por macieiras, pereiras ou oliveiras, vai ver que bebem a mesma água. E se puser nogueiras bebem ainda mais. O eucalipto tornou-se uma questão ideológica. A esquerda não gosta de tudo o que significa ganhar dinheiro e é óbvio que os eucaliptos estão ligados à indústria papeleira, apesar de esta indústria exportar muito eucalipto de outros países. E também não é verdade que o eucalipto arde mais do que os outros. As pessoas que têm lareira, a lenha que põem lá são de eucalipto? Não, todas as pessoas usam lenha de pinheiro, azinho ou sobreiro porque têm muito maior capacidade calórica. Então o pinhal de Leiria não ardeu todo? O concelho de Mação não era o que estava mais protegido dos fogos e não ardeu? Com aquelas condições de temperatura, de ventos e humidade daqui a 10 anos o que devia estar a crescer outra vez volta a arder. Repitam-se aquelas condições e vai voltar a arder. Arder vai arder sempre, não podem é morrer pessoas nem arder 500 mil hectares. 

Mas a limitação da plantação de eucaliptos é para se manter...

Uma das condições impostas é não se poder aumentar a área. Um partido quando estabelece acordos com a esquerda e com a extrema-esquerda fica limitado na sua capacidade de fazer política e de agir. O ministro Capoulas Santos conhece bem o setor e tem bom senso nas decisões que toma, mas quando há assuntos que fazem parte do acordo e quando as decisões já estão tomadas não há muito a fazer. Mas a verdade é que a agricultura para este governo e, isso não tem nada a ver com o ministro Capoulas Santos, está relacionado com as diretrizes políticas do executivo, não tem a relevância e a importância que teve em outros governos.

Nomeadamente pelo governo anterior?

Sim, a agricultura tinha o peso do vice-primeiro-ministro. Paulo Portas sempre apoiou publicamente a lavoura. E não é só dizer. Na altura, em que existiam dificuldades financeiras profundíssimas no país, o Proder, ou seja, o plano que apoia o investimento no setor e, que agora está a dar frutos, tinha dotações de 150 milhões de euros e agora não tem. Foi também a altura em que os pagamentos aos agricultores foram feitos mais atempadamente. 

Quanto é agora a dotação?

São 90 milhões de euros. E pergunte aos agricultores como estão os pagamentos, os próprios agricultores não se aperceberam da relevância que teve isso. Estou na CAP há 28 anos e nunca assisti ao posicionamento da agricultura ao nível do vice-primeiro-ministro. Há opções políticas de apoio ao setor e elas foram mais notórias no governo anterior. Os bons resultados de agora são reflexo do investimento que foi feito há quatro anos e o que se está a passar agora vai ser repercutido daqui a uns 4 anos e é natural que venha a estagnar porque não há grande investimento.

O maior mamífero terrestre do mundo pode vir a ser a vaca


A caça furtiva e o impacto ambiental causado pelos seres humanos têm levado à extinção de espécies de mamíferos de grande porte, o que poderá ter consequências futuras na biodiversidade, alerta equipa de investigadores dos Estados Unidos.

FILIPA ALMEIDA MENDES 20 de Abril de 2018

A vaca pode vir a ser o maior mamífero terrestre dentro de algumas centenas de anos 
HUGO SANTOS

Se a extinção animal continuar ao ritmo actual, a vaca pode vir a ser, em poucos séculos, o maior mamífero terrestre do mundo. Esta é a conclusão de um estudo científico publicado nesta sexta-feira na revista Science, que analisou as tendências da extinção de grandes mamíferos ao longo de 125 mil anos.

A expansão da nossa espécie (Homo sapiens), que começou a partir de África há mais de 50 mil anos, levou a uma tendência de retracção no tamanho médio dos mamíferos para um décimo. Os seres humanos causaram um impacto significativo na vida selvagem e na extinção de determinadas espécies que, contrariamente ao que se pensava antes, não é um fenómeno recente mas tem vindo a ocorrer desde há cerca de 125 mil anos. A disseminação dos hominíneos – nomeadamente do homem de Neandertal e do Homo sapiens, entre outras espécies humanas –   coincidiu com a extinção dos animais de grande porte em finais do Pleistoceno (época do período Quaternário que remonta entre 2,6 milhões e 12 mil anos), como os mamutes-lanudos, tigres-de-dentes-de sabre e os gliptodontes – uma espécie de mamífero ancestral do actual tatu.

O risco não é o mesmo para todos os animais, visto que "quanto maior [o animal], maior a probabilidade de extinção", diz Felisa Smith, da Universidade do Novo México e coordenadora do estudo, citada pelo jornal El País. Segundo a investigação, os humanos começaram a caçar as grandes espécies de animais por causa da carne, enquanto as criaturas de tamanho mais reduzido como, por exemplo, os roedores acabaram por sobreviver. Este fenómeno é conhecido como "extinção por tamanho". "Do ponto de vista histórico da vida, faz algum sentido. Se matar um coelho, vai alimentar a sua família por uma noite. Se pode matar um grande mamífero, vai alimentar [toda] a sua aldeia", diz Kate Lyons, bióloga e co-autora do estudo, em comunicado da Universidade de Nebraska-Lincoln.

PÚBLICO -Foto
A estátua de um mamute, uma das espécies de mamíferos extintas, à porta da Universidade de Nebraska-Lincoln, nos EUA CRAIG CHANDLER/UNIVERSIDADE DE NEBRASKA-LINCOLN

Variável da "extinção por tamanho": os humanos

Estudos anteriores mostravam que este fenómeno teria começado na Austrália há cerca de 35 mil anos, no entanto, a nova investigação mostra que terá tido incício pelo menos 90 mil anos antes do que se pensava, em África. "Há um padrão muito claro de extinção [com base] no tamanho que segue a migração de hominíneos [para fora] de África", disse à agência Reuters Felisa Smith.

Morreu o último rinoceronte-branco-do-norte macho

A equipa de investigadores de várias universidades nos Estados Unidos compilou os dados, a maioria obtidos a partir de registos de fósseis e rochas, sobre a massa corporal, a distribuição geográfica e o tipo de alimentação de 3300 espécies de mamíferos, muitas já extintas. Os resultados da análise revelaram que, ao longo do período temporal observado, os fósseis foram-se tornando cada vez mais pequenos.

Na altura da extinção do final do período Cretácico, há 65 milhões de anos, mais conhecida como a extinção dos dinossauros – que levaria ao reinado dos mamíferos –, o tamanho corporal não esteve em causa. "Esse acontecimento originou a extinção da maioria dos organismos com mais de dez quilos, mas o risco de extinção não aumentou em função do tamanho corporal", o que leva à conclusão de que a variável presente nas últimas extinções em massa de mamíferos de grande porte foi uma: a presença humana – explica Felisa Smith, ainda segundo o El País.

A análise por continentes mostra uma coincidência temporal entre a expansão da nossa espécie, primeiro em África e depois noutras regiões, e a redução do tamanho das espécies nesses mesmos sítios. Há cerca de 125 mil anos, o mamífero africano médio já era 50% menor do que os seus homólogos noutros continentes (não povoados), de acordo com resultados do estudo referidos em comunicado.

À medida que a ocupação humana se começou a expandir, outras "extinções por tamanho" começaram a ocorrer em regiões e períodos coincidentes com os padrões da migração humana. Apesar de não haver uma data exacta em que começou a expansão do Homo sapiens, é consensual entre os cientistas a seguinte divisão por intervalos temporais: há cerca de 80 e 60 mil anos, habitava a África e já tinha ido para a Eurásia (junção dos continentes europeu e asiático); há cerca de 50 mil anos chegou à Austrália e, mais tarde, há menos de 20 mil anos, chegou à América. Na América do Norte, por exemplo, a massa corporal média dos mamíferos terrestres diminuiu de 98 quilos para 7,6 quilos após a chegada dos humanos, segundo o jornal britânico Guardian.

Alterações climáticas podem extinguir metade das espécies de regiões com grande biodiversidade

"Em termos globais, o tamanho corporal médio há 125 mil anos era de 69 quilos e o máximo [as maiores espécies, como os mamutes] à volta das 10,8 toneladas. Hoje, a média é de 16 quilos e o máximo [elefantes] é de 3900 quilos. No futuro, cairá para os 6,9 quilos e o máximo será de 900 quilos", estima a investigadora Felisa Smith, citada pelo El País. Isto significa que, dentro de algumas centenas de anos, "o maior mamífero da Terra pode muito bem vir a ser uma vaca doméstica com cerca de 900 quilos", conclui. Animais como os elefantes, as girafas ou os hipopótamos podem vir a extinguir-se, sendo que, em Março deste ano, morreu o último rinoceronte-branco-do-norte macho, no Quénia.

Impacto na biodiversidade
Vários estudos têm mostrado um declínio generalizado na biodiversidade, sendo que a taxa de extinção das espécies nos últimos séculos é até 100 vezes maior do que a taxa natural, refere ainda o El País. As ameaças à vida selvagem passam pelas mudanças climáticas, a perda de habitats – devido à conversão de espaços naturais em campos de cultivo e à urbanização –, a poluição e a caça furtiva. O estudo em questão, no entanto, não revelou provas científicas de que as mudanças climáticas tenham conduzido a  "extinções por tamanho" durante os últimos anos, tendo em conta que, de acordo com os dados analisados, os mamíferos de pequeno e grande porte revelaram-se igualmente vulneráveis a mudanças de temperatura.

Porém, outras investigações científicas afirmam que, ultimamente, se tem vindo a verificar uma crescente preocupação relativamente à conservação da fauna e flora. Thomas Brooks, investigador da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), disse à agência Reuters que a extinção dos grandes mamíferos é uma "desgraça e tristeza". Contudo, não acredita que seja muito provável, tendo em conta que estudos recentes sugerem que os animais de grande porte, como os elefantes, beneficiam mais das áreas protegidas do que os animais mais pequenos. Felisa Smith, adopta uma posição contrária e assegura que as populações de grandes mamíferos terrestres estão a diminuir e "o declínio das populações é a trajectória para a extinção".

Quanto ao impacto que o desaparecimento dos grandes mamíferos pode vir a ter na biodiversidade, de acordo com Kate Lyons, bióloga da Universidade de Nebraska-Lincoln e também entre os autores do trabalho, a massa corporal média dos mamíferos poderá baixar para menos de seis quilos – aproximadamente o tamanho de um yorkshire terrier – e a extinção terá impacto ao nível ambiental. "Se esta tendência continuar, e todas as espécies actualmente ameaçadas se extinguirem, então o fluxo de energia e a composição taxonómica [do ecossistema] serão totalmente reestruturados", acrescentou Felisa Smith em comunicado. Esta reestruturação poderá ter profundas implicações para os ecossistemas, uma vez que os grandes mamíferos, tendencialmente herbívoros, consomem grandes quantidades de vegetação, permitindo a transferência desses nutrientes, pelo que os mamíferos sobreviventes (provavelmente de pequeno porte) terão pouco impacto ao nível ecológico.

O investigador Gerardo Ceballos, do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autónoma do México e que não participou no estudo, acredita, por sua vez, que poderão permanecer algumas populações reduzidas de grandes mamíferos em áreas protegidas, como "elefantes e de leões mas com um papel ecológico nulo", diz o cientista segundo o El País. Gerardo Ceballos, que tem vindo a alertar para uma sexta extinção em massa, acrescenta que "desde há algum tempo que [a extinção] já deixou de ser selectiva, afectando não só mamíferos de todos os tamanhos, mas também peixes, aves, anfíbios". Desta forma, concorda que, se esta "aniquilação da vida selvagem" continuar, a maior parte dos animais sobreviventes serão domésticos ou animais de quinta e o maior será a vaca.

Costa afirma que Portugal recusará redução do envelope financeiro de fundos europeus


20/4/2018, 20:53

Primeiro-ministro disse esta sexta-feira, no centenário do Ministério da Agricultura, que Portugal bater-se-á, no mínimo, pela manutenção do atual envelope financeiro de apoio ao setor.


O primeiro-ministro afirmou esta sexta-feira que a agricultura estará "no topo" das prioridades do Governo português nas negociações do próximo quadro comunitário de apoio e salientou que Portugal bater-se-á, no mínimo, pela manutenção do atual envelope financeiro. António Costa falava no encerramento do centenário do Ministério da Agricultura, numa sessão que decorreu na Fundação Champalimaud em Lisboa e que contou com a presença de vários antigos ministros desta pasta e do atual titular, Capoulas Santos.

"Na estratégia portuguesa para a negociação dos fundos europeus para o próximo período de programação, para cujo sucesso estamos a envidar esforços no sentido de garantir o mais amplo consenso político e social possível, a agricultura está colocada no topo das nossas prioridades", declarou o primeiro-ministro. Neste ponto relativo às futuras negociações em Bruxelas, António Costa frisou que o Governo português "bater-se-á para que não só o envelope financeiro destinado a Portugal seja no mínimo mantido, como também para que não haja qualquer cofinanciamento no primeiro pilar".


"Deve prosseguir o processo de convergência e manter-se a atual chave de repartição e percentagem do segundo pilar. Por outro lado, sem pôr em causa o caráter comum da mais europeia das políticas, importa que se alargue o grau de subsidiariedade que permita manter as melhores soluções para as nossas especificidades, como seja o alargamento das elegibilidades para a floresta e para o regadio, os apoios para as zonas desfavorecidas ou para o investimento em explorações", detalhou o líder do executivo. Na sua intervenção, o primeiro-ministro começou por elogiar os progressos tecnológicos da agricultura portuguesa, mas falou também sobre as consequências das alterações climáticas em Portugal, que terão estado na origem de um período prolongado de seca e da vaga de incêndios no último verão.

Face ao desafio das alterações climáticas, António Costa referiu que o Governo assumiu como prioridades a reforma da floresta e a concretização do Programa Nacional de Regadio. "É também por isso que temos em preparação a execução de um vasto conjunto de instrumentos que concorrem concretamente para esses objetivos, sendo o caso do Programa Nacional de Reformas, o Plano de Coesão Territorial e o Plano Nacional de Ordenamento do Território", disse. No que respeita ao Plano Nacional de Ordenamento do Território, António Costa especificou que será brevemente colocado em discussão pública antes da sua aprovação definitiva em Conselho de Ministros no próximo mês de julho.

sábado, 21 de abril de 2018

Incêndios. Associação de vítimas indignada com ministro Pedro Marques


19.04.2018 às 13h07

Movimento associativo de apoio às vítimas do incêndio de Midões (Tábua) reage às declarações do ministro do Planeamento no Parlamento, quando disse desconhecer a existência de situações precárias de alojamento devido aos incêndios de 2017 após ter sido confrontado pelo PCP e pelo PSD sobre famílias a viver em rulotes e tendas

O movimento associativo de apoio às vítimas do incêndio de Midões (Maavim), concelho de Tábua, manifesta indignação pelo facto de o ministro do Planeamento ter dito que não existem pessoas a viver em rulotes, na sequência dos fogos de 2017.

Pedro Marques disse na quarta-feira, no Parlamento, desconhecer a existência de situações precárias de alojamento devido aos incêndios de 2017, após ter sido confrontado pelo PCP e pelo PSD sobre famílias a viver em rulotes e tendas.

Esta quinta-feira, numa nota enviada à agência Lusa, aquela associação representativa das vítimas garante que, seis meses após os incêndios que mataram 49 pessoas, nenhuma primeira habitação foi ainda construída e que "existem pessoas a viver em 'roulottes', garagens, casas emprestadas e de familiares, sem qualquer ajuda".

"Principalmente no concelho de Arganil, Oliveira do Hospital, Seia, Tábua, entre outros concelhos, são dezenas os casos verificados por esta associação. Mais informamos que também muitos são os casos de rejeição à construção das habitações e outros os que não foram aceites como primeira habitação, por diversos motivos", refere a nota.

A associação liderada por Fernando Tavares Pereira, que remeteu também à Lusa uma mensagem enviada em fevereiro a diversos ministros – entre os quais Pedro Marques –, ao Presidente da República e ainda ao primeiro-ministro, com um conjunto de alertas de reivindicações, nomeadamente sobre agricultura e habitação, diz também haver vários casos de relatos de pessoas em habitações indignas, nomeadamente na comunicação social.

"Vários casos têm sido relatados pelas próprias pessoas e pela comunicação social. O sr. ministro não conhece os casos porque não os vem ver. No caso das segundas habitações, o sr. ministro empurra para os municípios e os municípios nada dizem sobre esses ditos apoios", lê-se na nota.

A associação defende que é necessária a agilização de processos para que tudo seja revisto, principalmente os Planos Diretores Municipais (PDM).

"O que foi dito ontem pelo sr. ministro demonstra uma falta de conhecimento do que se passa na realidade nos concelhos afetados pelos incêndios de outubro", concluem.

Na quarta-feira, Pedro Marques reconheceu que a destruição de primeiras habitações deixou as famílias em situações precárias de alojamento, mas garantiu que "todos os casos reportados estão em casa de familiares", assegurando que não há informação de pessoas a viver em instalações móveis.

"Se houver casos de pessoas a viver em tendas, não conheço nenhum. Se quiser fazer chegá-los diretamente, vamos à procura de uma solução para essas famílias", declarou o ministro, reforçando que é necessário ter "informação concreta dessas situações para poder tentar resolvê-las".

"Garanto que não encontrei nenhuma família a viver em tendas", frisou Pedro Marques, referindo que visitou vários concelhos afetados pelos incêndios florestais de junho e de outubro de 2017 e que falou com várias dezenas de famílias.

No âmbito de uma audição na Comissão de Agricultura e Mar, requerida pelo PCP, sobre as medidas relacionadas com os incêndios florestais de 2017, o deputado comunista João Dias criticou o Governo por "anunciar apoios de milhões" quando "no terreno há centenas de pessoas a viver com dificuldades, em carros, tendas, 'roulottes' e casas de amigos".

Já a deputada do PSD Emília Cerqueira disse ter recebido "denúncias de pessoas a viver em 'roulottes', tendas e em casas de familiares".

Alterações climáticas: o grande desafio “do Ministério da Agricultura no próximo século"


20 abr, 2018 - 11:44

Ministro da Agricultura admite, na Manhã da Renascença, haver condições climáticas para provocar "fenómenos com os quais não tínhamos convivido antes" em termos de incêndios.

O ministro da Agricultura considera que "água, floresta e alterações climáticas" e o que isso significa em termos de "adaptar as culturas, as sementes, os métodos de fazer agricultura serão os grandes desafios para o Ministério da Agricultura no próximo século".

Capoulas Santos esteve na Manhã da Renascença para falar dos 100 anos que passam, esta sexta-feira, sobre a criação do Ministério da Agricultura.

Questionado sobre o relatório norte-americano hoje apresentado, segundo o qual os incêndios em Portugal podem ser ainda ser piores no futuro do que no ano passado, diz não ter "razão para o pôr em causa" e reconhece que "o problema das alterações climáticas e da secura" ajudaram a criar "condições convergentes para provocar fenómenos com os quais não tínhamos convivido antes, como foram os dois episódios do ano passado".

"De facto, foi algo absolutamente extraordinário que todos os testemunhos e cientistas revelam ter atingido proporções que depois tiveram aquelas consequências dramáticas", reforça.

O estudo hoje apresentado em Lisboa é da autoria de um especialista norte-americano, antigo responsável dos Serviços Florestais dos Estados Unidos, que antecipa que a área ardida num ano pode chegar aos 750 mil hectares, mais 200 mil do que no ano passado.

O cenário é, contudo, rejeitado pelo antigo comandante operacional nacional da Proteção Civil José Manuel Moura. "É uma probabilidade que só fará algum sentido se nada for feito", sustenta.

Também na Manhã da Renascença, José Manuel Moura acredita que as recomendações apresentadas pela comissão técnica independente, da qual fez parte, podem fazer a diferença: "Quero acreditar que as recomendações estão a ser atendidas e que é um cenário que não venha a acontecer", diz.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

No centenário do Ministério da Agricultura


O que leva a que tenha vindo a consolidar-se a ideia da desnecessidade do ministério que agora chega ao centenário?

19 de Abril de 2018, 6:16

Não nos damos conta, mas a política agrícola e alimentar é aquela que nos acompanha ao longo de toda a nossa vida. Também a política ambiental, mas já em segundo nível. Todas as restantes, da saúde à educação, aparecem em tempos espaçados, em momentos específicos.

O Ministério da Agricultura é, por isso, o ministério do subconsciente, aquele que está lá mas de quem não nos socorremos por ser automático, ubíquo, inquestionável.

Mas se assim é, o que leva a que tenha vindo a consolidar-se a ideia da desnecessidade do ministério que agora chega ao centenário? A resposta não é simples, tem muitas componentes, exigiria muito mais do que um texto de comemoração. Há, contudo, algumas razões que devem ser aqui expedidas.

O tempo que vivemos avoca uma dualidade, que parece quase irremediável, entre ruralidade e cosmopolitismo. Esta circunstância tem marginalizado, em termos públicos, o campo de debate dos assuntos agrícolas e dos temas da alimentação no início da cadeia de valor. Por outro lado, as questões que são assumidas pelo espaço rural, na sua relação com tradições ancestrais e com vivências especiais, em especial com o mundo animal, levam a que as mais recentes agendas se afirmem desgraduadoras de um departamento de Estado que deve pugnar pelo equilíbrio entre os modos de vida tradicionais e os incrementos societais. As questões da caça, da pesca em águas interiores, da produção equina, da festa brava, das formas regionais de "matança", são exemplos do que referimos.

Está claro que a desconsideração pelo espaço político da agricultura também advém da forma como temos gerido, enquanto país, as opções estratégicas do setor. Há que assumir, porque neste tempo de olhar para o futuro não importa fechar portas nem deixar de afrontar o passado, que o Ministério da Agricultura se transformou numa espécie de tesouraria dos fundos europeus, quase desconhecendo as novas modalidades do fazer política, do afirmar das organizações e do marketing institucional.

Quando reparamos na presença do Ministério da Agricultura ela está sempre na identificação de valores monetários, na reivindicação de subsídios e comparticipações. Ora, sendo verdade que os setores agrícola e florestal assumem contingências que não existem em mais nenhum outro universo económico, não é menos verdade que esta liturgia é nefasta para a emancipação dos empresários, para a assunção das responsabilidades dos proprietários da terra e, ainda, para as entidades locais com responsabilidade no território.

Em todos os domínios políticos com dimensão territorial se verificaram processos de descentralização significativos. Iremos constatar novos impulsos no próximo futuro. Porém, mesmo depois das boas e estratégicas medidas de racionalização do ministério de 1997 e 2006, essas inovações estruturais nunca atravessaram, de forma expressiva, o setor agrícola. A questão que se coloca é sobre as razões para que tal tenha acontecido. E nós identificamos bem essas razões. As primeiras são de propriedade partidária. Os partidos centrais deixaram de fazer políticos no setor, deixaram de inovar e de reivindicar o benchmarking, deixaram de ir captar quadros a outros universos empresariais, deixaram de se relacionar com a universidade incorporando conhecimento transversal e implicando as opções de outros territórios técnicos. As segundas são de sectarismo temático que levam a que o paradigma do "agricultês" vá eliminando a ciência económica.

Perante todos estes factos, há também duas formas de fazermos o caminho. A primeira é fechar os olhos. Assim, voltamos sempre à casa de partida, ao certo que foi mas ao errado que será. A segunda é a promoção de uma transformação de métodos e de estatuto que não se fique pela usança.

Desde a nossa pré-adesão até hoje, com muitos milhares de milhão de euros entrados e transferidos para o setor, que deveríamos ter concretizado uma análise completa do caminho que seguimos, dos sucessos e dos insucessos. Está claro que esta economia se transformou em parte; está claro que se verificou uma transfiguração radical das práticas e da incorporação tecnológica; está claro que temos, por esta altura, nichos de ponta e realidades de sucesso. Mas é também claro que não há outro setor onde a mortalidade dos projetos seja tão alta, em que a avaliação do investimento seja tão desordenada e até inexistente, em que se constata passado e presente mas não se adivinha futuro estruturado e de médio prazo. Temos, pois, um navegar ao instante, mas não temos uma estratégia que nos deixe descansados. Um reparar nas opções smart das políticas púbicas leva-nos a preocupações ainda maiores no universo agrícola.

O acontecimento que foi o Alqueva, implicante de outras políticas e outras obrigações, não comporta uma leitura sobre o custo da sua gestão, não nos diz do impacto que vai ter no momento em que se considerar obrigatório o investimento de manutenção e de garantia de exploração eficiente. O mesmo princípio, do custo-benefício, que se deve indicar aos restantes projetos de regadio, não se nos afigura, por agora, certificado.

Por outro lado, nós não temos ainda um quadro estratégico para a produção animal; nós não temos um pensar global para a política florestal; nós não temos uma leitura conhecida de sanidade; nós não temos um quadro plurianual de investigação e de parceria. Poderão dizer-nos que há ideias, projetos, momentos. Sim, não o negamos, mas o país não é a cabeça de uma só pessoa, não é a centralização numa visão, por mais lúcida que possa ser. O país é um contínuo, é uma linha que deve garantir sequência. É por isso que sempre nos manifestamos contra o incrementalismo acrítico que o Ministério da Agricultura foi tendo com raras mas relevantes exceções.

Outro dos campos de política em que o Ministério da Agricultura se tem mostrado débil é o do conhecimento das cadeias de valor. O agroalimentar é muito estimado pelas estruturas da Economia e encontra uma dificuldade teológica permanente na relação com a Agricultura. Há uma linha intransponível na conexão – a visão burocrática do investimento, a lenta opção pelos ciclos da natureza que não são os ciclos do investimento industrial. O mesmo se pode encontrar no setor pecuário, onde Portugal pode acordar e dar cartas, mas que tarda em encontrar novas formas de se afirmar, organizar, crescer e diversificar-se.

Quando olhamos o setor florestal, que tem um peso nas exportações muito significativo, encontramos uma permanente desconsideração nas opções centrais. Não se trata de descobrir respostas momentâneas (mesmo que importantes e corretas) para afrontar os incêndios, trata-se, tão só, de encetar formas de interprofissionalismo, de partilha e de determinação de objetivos que, embora enunciados, não saem do papel por medo de agir.

Estamos a chegar a um momento em que se vai negociar um novo pacote financeiro para a agricultura. Esta negociação será feita na última época de um tempo europeu. Quando chegar o final da próxima década não haverá mais esta PAC com tantos recursos financeiros, porque a União Europeia vai, obrigatoriamente, redefinir as suas obrigações ou porque, para mal nosso, terá deixado de existir entretanto. 

O processo que estamos a preludiar, para o qual encontramos um consenso mínimo entre partidos que leva a que o montante destinado a Portugal seja semelhante ao do último período de fundos, vai ser determinado, relativamente à comparticipação nacional do primeiro pilar e, ainda, à distribuição entre pilares e eixos nacionais, pela realidade que queremos vir a construir. Olhamos a oposição parlamentar e gostaríamos que o Governo encontrasse com ela mais opções para se reequilibrar territorialmente o setor na perspetiva das próximas ajudas comunitárias.


Até agora mais não vimos do que o indicar de um valor, mais não constatamos que um temor, errado de dizer, de que possamos vir a ter uma redução de 15% dos fundos (o que nunca aconteceria). O país deveria saber onde quer investir o que a UE nos vai entregar, se quer reiniciar uma alteração significativa do seu paradigma agrícola e florestal, seguindo as linhas estratégicas do PRODER, ou se quer fazer mais do mesmo. Não nos basta a existência de uma comissão de sábios que é a mesma de sempre; não nos chega saber que os mais prestigiados técnicos serão ouvidos porque serão sempre os mesmos; o que nos interessava era que o país, todo o país, estivesse a partilhar o futuro da agricultura e que deixássemos de ter um sentimento de desconsideração que já identificamos no início deste texto.

Tendo trabalhado com o primeiro-ministro António Costa, conhecendo a sua permanente insatisfação perante realidades insuficientes, talvez possamos adivinhar que ele gostasse de uma outra velocidade, que o país tivesse, também aqui, outro olhar sobre o futuro. Sabemos que o atual ministro tem, também, um desejo – o de consolidar e perenizar a sua marca para o futuro. Que todos possamos dar-lhes a energia para que se vença a letargia do sistema e se lhe dê caminho.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Açores vão ter até ao verão plano de ação para a apicultura


Os Açores vão ter, até ao verão, um plano de ação para a apicultura, um documento que irá definir um conjunto de medidas que potenciem o desenvolvimento a médio e longo prazo deste setor agrícola, foi hoje anunciado.

"Era importante ter um documento orientador e que defina um conjunto de medidas com vista ao desenvolvimento do setor no médio e longo prazo", disse o secretário regional da Agricultura e Florestas, João Ponte, à margem da visita a uma exploração apícola no concelho de Ponta Delgada, São Miguel.

Citado numa nota do Governo açoriano enviada às redações, o titular pela pasta da Agricultura explicou que este plano apícola vai identificar um conjunto de aspetos a melhorar, contribuindo para uma maior valorização do mel que se produz nos Açores, para o aumento da produção e para a conquista de mais consumidores.

De acordo com o executivo, existem na região cerca de quatro centenas de apicultores, 742 apiários e quase 6.000 colmeias.

O plano está a ser elaborado por técnicos da Secretaria Regional da Agricultura e Florestas e parceiros do setor e, segundo João Ponte, deverá "incidir sobre quatro grandes objetivos, nomeadamente a sanidade, o acompanhamento técnico, o fortalecimento do associativismo e a comercialização, com vista a tornar o setor mais atrativo e rentável".

João Ponte destacou o papel "muito importante" da apicultura para o setor agrícola, "pelo contributo das abelhas enquanto polinizadoras naturais, o que contribui para aumentar a rentabilidade das explorações, mas também na polinização de outras plantas, preservando-as e, consequentemente, dando um contributo para o equilíbrio do ecossistema e a manutenção da biodiversidade".

O secretário regional referiu que se tem registado nos últimos anos um crescimento muito acentuado do número de apicultores e apiários no arquipélago, bem como uma evolução da qualidade do mel produzido.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Governo mantém taxa de segurança alimentar nos sete euros em 2018


O Governo manteve a taxa sanitária e de segurança alimentar em sete euros por metro quadrado de área de venda do estabelecimento comercial, segundo uma portaria publicada esta segunda-feira em Diário da República.

16 de abril de 2018 às 16:10

A taxa em causa aplica-se a titulares de estabelecimentos de comércio alimentar de produtos de origem animal ou vegetal, estando isentos do pagamento os estabelecimentos com uma área de venda inferior a 2.000 metros quadrados ou pertencentes a micro empresas. 

O pagamento deve ser efectuado em duas prestações, após notificação electrónica, de montante igual até ao final dos meses de Maio e Outubro, respectivamente. 

Conforme indica o Governo, a falta de pagamento da primeira prestação, no prazo estipulado, implica o vencimento da segunda, sendo, posteriormente, o operador notificado para proceder à liquidação do montante anual.

O diploma, assinado pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, e pelo secretário de Estado da Agricultura e Alimentação, Luís Medeiros Vieira, entra em vigor esta terça-feira. 

A taxa de segurança alimentar foi aprovada em Conselho de Ministros em 26 de Abril de 2012 e foi contestada pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), que na altura considerou que a mesma iria ter um impacto negativo na competitividade do sector.

As receitas da taxa servem para financiar, através da Direcção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), o Fundo Sanitário e de Segurança Alimentar, que apoia vários tipos de acções no âmbito da segurança alimentar, da protecção e sanidade animal, da protecção vegetal e fitossanidade, prevenção e erradicação das doenças dos animais e plantas, entre outros objectivos.

Em cinco anos, o Governo encaixou 35,3 milhões de euros com a taxa, sendo que as empresas do grupo Jerónimo Martins têm uma dívida acumulada de 12 milhões de euros, segundo dados do Ministério da Agricultura.

Fundo Revita já disponibilizou mais de 4,3 milhões para áreas afetadas por incêndios


16/4/2018, 18:40

Neste momento sobram apenas cerca de 90 mil euros dos donativos angariados pelo Fundo Revita. O Fundo está diretamente responsável pela reabilitação de 96 casas.


O Fundo Revita já disponibilizou mais de 4,3 milhões de euros para reconstrução de habitações e apoios a agricultores das áreas afetadas pelos incêndios de junho de 2017, sobrando apenas cerca de 90 mil euros dos donativos angariados. Segundo o terceiro relatório trimestral, publicado esta segunda-feira na página da internet deste fundo criado pelo Governo, os donativos angariados até 31 de março ascenderam a 4.396.900,05 euros, dos quais, "até à data, entre reconstrução de habitações e apoios a agricultores, o Fundo Revita já procedeu a pagamentos no montante total de 4.305.256,34 euros".


Até ao final de março, o Fundo Revita recebeu o contributo de "60 entidades, com donativos em dinheiro, em bens e em prestação de serviços", representando um valor total em dinheiro de 4,3 milhões de euros, o que representa um acréscimo de 25 entidades doadoras e de cerca 600 mil euros angariados em doações monetárias nos últimos seis meses, já que o primeiro relatório trimestral indicava que até 30 de setembro aderiram 35 entidades, com um total em dinheiro de 3,7 milhões de euros

Das 60 entidades que já formalizaram a adesão ao Fundo Revita, 48 contribuíram com donativos em dinheiro, oito em espécie de bens móveis não sujeitos a registo e quatro em prestações de serviços, de acordo com os dados do terceiro relatório trimestral. Entre as entidades que doaram um maior valor monetário, até ao final de março deste ano, destacam-se o Governo da República Democrática de Timor-Leste, que fez a maior contribuição, no valor de 1, 2 milhões de euros [1.249.901,41 euros], o Banco Santander Totta e o Banco Europeu de Investimento, ambos com uma doação individual de 500 mil euros.

Além dos donativos em dinheiro [4,3 milhões de euros], o Ministério da Solidariedade e Segurança Social decidiu reforçar o financiamento do Fundo Revita em 2,5 milhões de euros, o que perfaz um total de 6,8 milhões de euros disponíveis para apoiar as populações e a revitalização das áreas afetadas pelos incêndios ocorridos em junho de 2017, nos concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande.

No âmbito das casas a recuperar e a reconstruir nos três concelhos afetados, mas também nos municípios adjacentes de Góis, Pampilhosa, Sertã e Penela, "foram atribuídos fundos para reconstrução de 265 casas de primeira habitação, das quais estão todas em andamento", refere o terceiro relatório trimestral do Fundo Revita, avançando que existem "249 casas em fase mais avançada, nomeadamente 100 habitações com obra em execução e 149 já concluídas".

O Fundo Revita está diretamente responsável pela reabilitação de "96 casas, com um perfil de intervenção mais exigente já que se tratam, na sua maioria, de reconstruções integrais". No final de março deste ano, "94% destas casas encontram-se já em execução ou concluídas", revelou o documento publicado esta segunda-feira. "A execução financeira é naturalmente mais faseada, encontrando-se pago, no que diz respeito a habitações, o valor total de 862.324,58 euros", apurou o relatório.

O Conselho de Gestão do Fundo Revita decidiu aplicar parte dos donativos na "recuperação da atividade dos produtores agrícolas e da agricultura de subsistência, cobrindo por esta via os agricultores que sofreram prejuízos superiores a 1.053 euros e inferiores a 5.000 euros", no âmbito dos incêndios de junho de 2017 nos concelhos de Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera e Pedrógão Grande.

"Foram atribuídos e processados subsídios a 1.131 produtores agrícolas, no valor total 3.442.931,76 euros. Por esta via é dada resposta a necessidades devidamente identificadas, não cobertas por medidas de política pública dirigidas às áreas e população afetadas pelos incêndios, contribuindo de forma direta para o bem-estar das populações e a revitalização dos territórios atingidos", indicou o terceiro relatório trimestral. Entre reconstrução de habitações e apoios a agricultores, "o Fundo Revita já procedeu a pagamentos no montante total de 4.305.256,34 euros", apontou o documento, pelo que sobra apenas cerca de 90 mil euros dos donativos angariados.

Os incêndios que deflagraram na zona de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, em junho, provocaram 66 mortos: a contabilização oficial assinalou 64 vítimas mortais, mas houve ainda registo de uma mulher que morreu atropelada ao fugir das chamas e uma outra que estava internada desde então, em Coimbra, e acabou também por morrer. Houve ainda mais de 250 feridos.

Reportagem: "É como mandar bebés de 2 anos crescer sozinhos"

ZIF Entre Douro e Sousa foi a 1.ª do Norte e 2.ª do país. Tem 7223 hectares, de 186 proprietários


Zonas de Intervenção Florestal gerem de forma agrupada terrenos de um grande número de proprietários, mas vivem sem perspetivas de sustentabilidade.

Do Alto da Regadinha (Penafiel), da torre de vigia de onde os sapadores alertaram para várias ignições em simultâneo, num sábado negro de 2017, toda a mancha verde que o olhar abarca faz parte da Zona de Intervenção Florestal (ZIF) Entre Douro e Sousa, uma das 188 do país. Naquele sábado de agosto, ardeu parte da floresta, menor do que teria desaparecido se não fosse tratada desde 2007. Preservar o que existe é, para já, a meta. Os objetivos são mais ambiciosos, mas para isso são precisos meios. "As ZIF são como bebés de dois anos, a quem o Estado tira todo o apoio e manda crescer sozinhos", diz Américo Mendes, presidente da Associação Florestal do Vale do Sousa, que gere quatro zonas florestais.


Sapadores prestam serviços a terceiros, para ter receitas

Foto: José Carmo/Global Imagens

As ZIF foram criadas em 2005 para incentivar os proprietários a unirem-se e entregarem a gestão das suas propriedades a uma entidade profissional. Com isso, é possível agrupar pequenas áreas até ter dimensão suficiente para viabilizar uma exploração económica, que dê rendimento aos proprietários e assegure a sustentabilidade e diversidade da floresta - em vez de a deixar ao abandono, como hoje é frequente. "Esse será o objetivo último, mas estamos longe de lá chegar", diz Américo Mendes.

Longe sobretudo porque as ZIF vivem "sem saber como será o mês seguinte". A consequência é visível, no terreno. Numa das raras tardes de sol deste início de primavera, encontramos uma das equipas de sapadores da associação a limpar uma mata que fica na berma da estrada, mas que não integra a ZIF, nem pertence a um associado. É um contrassenso: quando se prepara a defesa da floresta contra incêndios, os sapadores estão a trabalhar para terceiros, em vez de proteger a sua floresta. A razão é simples, diz Américo Mendes: "É preciso pagar salários".


Américo Mendes preside à Associação Florestal do Vale do Sousa

Foto: José Carmo/Global Imagens
É assim que se percebe por que razão, dos cinco elementos que devem integrar uma equipa de sapadores, só três avançavam pelo terreno à força de motosserras e motorroçadores, liderados por Francisco Ferreira, 63 anos e sapador florestal desde a criação das equipas, em 1999. O trabalho é duro e paga pouco mais do que o salário mínimo, que nem sempre chega ao banco a horas. Um segundo está doente e um terceiro trabalhou menos de um mês, até encontrar melhor emprego. No intervalo para lanche, Francisco Ferreira fez as contas a quantos sapadores já passaram pela sua equipa. "Mais de 50", calcula.

Causas e consequências

A causa dessa instabilidade financeira, identifica Américo Mendes, é a falta de apoio público a um tipo de projeto que demora anos a estruturar-se, ganhar força e dinâmica, até ser capaz de sobreviver sozinho.

Primeiro, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas contrata um determinado número de horas de trabalho às equipas de sapadores para vigilância e prevenção de incêndios, no verão. Em troca, paga 40 mil euros, o que não chega sequer para os salários. E paga em tranches. "Recebemos no final de março e a tranche anterior tinha sido paga em outubro. Foram seis meses sem receita, numa altura em que não há trabalho alternativo", lamenta Américo Mendes. "Se fosse pago em fevereiro, quanta aflição se tinha poupado".

Segundo, muitas autarquias continuam alheadas da floresta, mesmo depois dos incêndios de 2017. As ZIF geridas pela associação abarcam Felgueiras, Paredes, Paços de Ferreira, Lousada, Penafiel e Castelo de Paiva. Destas, só uma - Felgueiras - tem assinado um contrato-programa com os sapadores, que executam no terreno as medidas do Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Fica a cargo de cada autarca decidir se contrata as equipas de sapadores e ajuda à sua sustentabilidade.

Envolver o poder local na sustentabilidade das organizações é fundamental, para que tenham viabilidade, defende Américo Mendes. Tal como atribuir os 25 milhões de euros do Fundo Florestal Permanente de acordo com a titularidade da floresta (95% é privada) e mediante a assinatura de contratos-programa de médio prazo, com metas auditáveis. "É preciso continuar a apoiar as organizações, até que um número suficiente de proprietários deleguem a gestão da sua floresta". Os sinais vindos da Secretaria de Estado das Florestas são, ao que parece, positivos.

Perguntas & Respostas

O que é uma ZIF?

l Uma Zona de Intervenção Florestal (ZIF) é uma forma de gestão agrupada da floresta, criada em 2005. Não tem personalidade jurídica, quem o tem são as entidades gestoras: são quase todas associações de produtores ou de proprietários florestais, mas há algumas cooperativas e empresas.

Porque foram criadas?

l Em Portugal, sobretudo nas regiões Norte e Centro, o tamanho médio das propriedades é notoriamente pequeno. A ZIF pretende agrupar, sob uma gestão única, um grande número de micropropriedades, de forma a ganhar economias de escala (dividir custos de limpeza e proteção, por exemplo) e rentabilizar a floresta (um objetivo ainda longe de ser cumprido).

Que critérios a cumprir?

l No final do ano passado, os critérios de constituição de ZIF foram aligeirados. A última versão do Decreto-Lei n.º 127/2005, de 5 de agosto, indica que tem de ter uma área de entre 500 e 20 mil hectares e incluir, pelo menos, 25 proprietários ou produtores e 50 prédios rústicos. Os terrenos devem ser contínuos.

Que vantagens tem?

l Um produtor ou proprietário pode entregar a gestão do seu terreno a uma ZIF e assim certificar-se de que cumpre a lei, com um menor custo. Além disso, se a gestão for profissional, aumenta a resiliência contra incêndios florestais. Nas candidaturas ao PDR 2020 (fundos europeus), o projeto terá uma maior pontuação.

Que serviços presta?

l Uma ZIF pode dar apoio técnico (conselho sobre espécies a instalar, controlo de pragas e doenças ou serviço de limpeza), realizar o cadastro do terreno com recursos a GPS, ajudar a avaliar e a vender madeira, apoiar candidaturas a apoios financeiros e acompanhar a relação do associado com entidades públicas, entre outros.

Carrefour vende alimentos à base de grilos, gafanhotos e outros insetos

Dinheiro Vivo 17.04.2018 / 21:49 

Os insetos estão regulados e aprovados como alimentos pela União Europeia desde 1 de janeiro deste ano. 

A Carrefour lançou em Espanha uma nova linha de alimentos feitos à base de insetos, produzidos pela marca francesa Jimini's através de agricultura biológica, escreve esta terça-feira o espanhol El País. Os gafanhotos, grilos e larvas, são a base de barras energéticas, snacks, aperitivos, massas e granolas, e os preços variam entre os dois e os sete euros. Nesta nova gama o consumidor pode encontrar larvas picantes, com alho e ervas, grilos com cebola fumada e molho de churrasco. 

Os insetos surgem ainda em versão de barras energéticas de chocolate negro com figos e pó de grilo, entre outros, explica a mesma fonte. Os produtos podem ser adquiridos nas várias lojas físicas do país ou online. Desde janeiro deste ano, os insetos estão regulados e aprovados na lista dos "novos alimentos" pela União Europeia, o que facilita agora a comercialização para consumo. 

A empresa diz que esta nova linha pretende "oferecer aos consumidores os produtos mais inovadores e adicionar alternativas de compras sustentáveis e que respeitem o meio ambiente", refere o mesmo jornal. Segundo o El País, a produção destes alimentos à base de insetos quase não recorre ao uso de água e contribui para a redução dos gases com efeitos de estufa. 

A Carrefour sublinha ainda a fonte nutritiva destes alimentos, ricos em proteínas, vitaminas B1, B2 e B3, ómega 3 e 6, aminoácidos essenciais, minerais e ferro. "Segundo a Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), os insetos são consumidos atualmente por mais de 2 mil milhões de pessoas, pelo que se considera ser o alimento do futuro", explica a empresa.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Praga de traça que mata batata ameaça Portugal



Foto: Pedro Correia / Global Imagens


NUNO MIGUEL ROPIO
Ontem às 00:02

Está a 60 km do Minho foco de inseto que já atinge 33 municípios na Galiza.

Uma praga da traça da Guatemala que destrói a batata está às portas de Portugal, depois de já se ter espalhado de forma imparável pela Galiza. O último foco deste inseto foi identificado no município de Ourense, apenas a 60 quilómetros do Minho. As autoridades galegas têm-se mostrado incapazes de controlar o inseto, que facilmente percorre longas distâncias, graças a carregamentos daquele tubérculo e até da própria semente.

Os estragos junto dos produtores de batata são já de tal forma avultados que o Governo autónomo da região vizinha - a Xunta da Galicia - avançou no último fim de semana com um decreto que estabelece regras para novas indemnizações, depois de ter ajudado 1323 agricultores nos últimos meses.

Refira-se que os tratamentos de extermínio levados a cabo pelas autoridades sanitárias estão longe de parar a praga. De forma a impedir a saída da traça das áreas atingidas, foram destruídas mais de 400 toneladas de batatas.

Segundo Victor Novo, chefe do Serviço de Saúde e Produção Vegetal da Xunta de Galicia, em declarações ao jornal espanhol "El País", "há motivos para preocupação", tendo em conta que a Galiza é uma grande produtora de batata. "Com este cenário, devemos ter medo", frisou.

Desde 1999 que as ilhas espanholas das Canárias, e mais recentemente as Astúrias, reportavam a existência da traça da Guatemala - uma larva que se desenvolve dentro da batata, destruindo todo o seu miolo. À Galiza terá chegado durante o ano de 2015, tendo-se tornado imparável.

Cabo Verde preside Conselho regional africano de Investigação agrícola


Cabo Verde assume, pela primeira vez, a presidência do Conselho Oeste e Centro Africano para a Investigação e Desenvolvimento da Agricultura (CORAF). O cargo vai ser ocupado pela engenheira Angela Moreno, na qualidade de presidente do Instituto de Investigação para o Desenvolvimento Agrário (INIDA).


A eleição aconteceu durante a 12ª Assembleia Geral do CORAF, que decorreu de 10 a 12 de Abril em Dacar, Senegal. Para o ministro da Agricultura e Ambiente, uma das vantagens que Cabo Verde poderá tirar da presidência do CORAF é o facto de passar a ter "muito mais acesso" a informações relativas ao financiamento e à realização dos projectos e programas que têm a ver com esta instituição.

Com Cabo Verde na presidência do CORAF, prossegue Gilberto Silva, os técnicos nacionais terão "mais facilidades" em se associarem aos programas de investigação e formação.

A mesma opinião tem a nova presidente do Conselho Oeste e Centro Africano para a Investigação e Desenvolvimento da Agricultura, Ângela Moreno, que, conforme fez saber, o foco do seu mandato vai no sentido de investigação para o desenvolvimento agrário em toda a África Ocidental e Central.

Segundo Gilberto Silva, que representou Cabo Verde na Assembleia Geral do CORAF, durante a Assembleia Geral, foram adoptados instrumentos "muito importantes", nomeadamente o plano estratégico de investigação no horizonte de dez anos e o plano de acção no horizonte de cinco anos.

De acordo com o governante, além de "maior pragmatismo" e efectividade no trabalho do CORAF, o país defendeu "maior partilha" dos resultados de investigação, assim como uma atenção à problemática das mudanças climáticas e à resiliência do sector, com destaque para as realidades dos estados insulares, como o caso de Cabo Verde.

Revelou, por outro lado, que a delegação cabo-verdiana advogou ainda um "maior suporte financeiro" para os projectos de investigação e desenvolvimento.

Destacou ainda o facto de, em 30 anos de existência, a presidência do conselho de administração do CORAF ser assumida por uma mulher, na circunstância a presidente do INIDA.

"Isto é prestigiante para o INIDA, para o nosso país e orgulha-nos bastante", indicou Gilberto Silva, acrescentando que Ângela Moreno terá o suporte necessário do Governo, em ordem a fazer um "excelente mandato" durante os três anos em que vai dirigir os destinos do CORAF, juntamente com os demais membros do conselho de administração.

O CORAF é uma comunidade de instituições de investigação e desenvolvimento agrário e agrega instituições de 23 países africanos. Tem parcerias científicas e técnicas de instituições de reputação mundial, como a CIRAC (Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronómica para o Desenvolvimento).

PE aprova regulamento sobre redução das emissões de gases com efeito de estufa


O Parlamento Europeu (PE) aprovou hoje um regulamento sobre as reduções anuais obrigatórias das emissões de gases com efeito de estufa pelos estados-membros da União Europeia (UE) entre 2021 e 2030, e outro relativo à gestão das florestas.

Em sessão plenária, em Estrasburgo (França), o PE aprovou, por 343 votos a favor, 172 contra e 170 abstenções, uma nova legislação que estabelece metas vinculativas para a redução das emissões de CO2 pelos estados-membros, englobando os transportes, os resíduos, os edifícios e a agricultura.

Os objetivos nacionais de redução das emissões foram fixados sobretudo com base no PIB per capita, com vista a garantir a equidade, variando entre 0% na Bulgária e -40% no Luxemburgo e na Suécia.

Em relação a Portugal, o objetivo de redução foi fixado em -17% em 2030, em comparação com 2005.

As novas regras aplicam-se aos setores não abrangidos pelo regime de comércio de licenças de emissão da UE, como os transportes, os resíduos, os edifícios e a agricultura, que representam cerca de 60% das emissões europeias.

As metas nacionais deverão contribuir para que o bloco comunitário atinja uma redução de 30% nestes setores em 2030.

Os eurodeputados aprovaram também, por 574 votos a favor, 79 contra e 32 abstenções, um regulamento relativo ao uso do solo, à alteração do uso do solo e às florestas, destinado a assegurar que as emissões e remoções geradas por este setor sejam tidas em conta entre 2021 e 2030.

O regulamento estipula que todos os estados-membros terão de garantir que as emissões provenientes deste setor são equilibradas e não excedem as remoções de CO2 e define um método de contabilização das emissões associadas ao uso do solo e às florestas.

Os dois regulamentos visam implementar os compromissos decorrentes do Acordo de Paris sobre o combate às alterações climáticas, com o objetivo de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em, pelo menos, 40% até 2030, em comparação com os níveis de 1990.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Incêndios: Governo disponível para apreciar novas candidaturas de apoio de agricultores afetados

O Ministro da Agricultura garantiu hoje que o Governo está disponível para apreciar novas candidaturas a apoios para agricultores afetados pelos incêndios desde que demonstrem que não apresentaram a candidatura devido a motivos de "força maior".

Este anúncio foi a resposta de Capoulas Santos à Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que exigiu, em Coimbra, a abertura de um novo prazo de candidaturas aos fundos de apoio para pequenos e médios agricultores que sofreram prejuízos nos incêndios de 2017.

"Todas as pessoas que, por razões fundamentadas, não puderam apresentar as candidaturas dentro do prazo, podem ter agora essas candidaturas avaliadas e analisadas", prometeu o ministro, que deu como exemplo de "força maior" uma situação de doença.

Capoulas Santos preveniu, no entanto, que não serão apreciadas candidaturas fora de tempo de pessoas que falharam os prazos simplesmente porque não acreditavam que o Governo iria pagar as indemnizações. "Somos um Governo de palavra", afiançou.

O ministro voltou a lembrar que o Governo pagou em "tempo recorde" 62 milhões de euros relativos a 25 mil candidaturas num valor máximo até cinco mil euros. Garantiu ainda que serão pagos a curto prazo mais 32 milhões de euros relativos a mil candidaturas até 800 mil euros.

"Foi um esforço gigantesco", afirmou o ministro, que agradeceu o envolvimento do Ministério das Finanças nesta operação.

No dia em que passam seis meses sobre os incêndios de 15 de outubro de 2017, que atingiram centenas de explorações agrícolas no Centro do país, a CNA exigiu, no final do seu Congresso Nacional, em Coimbra, a reabertura, pelo Governo, de candidaturas de acesso ou correção das ajudas para fazer face aos prejuízos dos incêndios.

"Em causa estão candidaturas até cinco mil euros. Muitos agricultores não conseguiram cumprir os prazos iniciais estabelecidos pelo Governo e necessitam desse apoio para recuperar as suas explorações", disse à Lusa Pedro Santos, da direção da CNA.

Nas conclusões do 8.º congresso, que reuniu 1.200 delegados e decorreu sob o lema "Soberania Alimentar com a Agricultura Familiar", a CNA pediu ainda ao Governo que regulamente a cadeia de venda e transformação da madeira, dizendo que os agricultores surgem como o elo mais frágil.

"O que os agricultores recebem pelo metro quadrado de madeira não chega para pagar metade das limpezas que precisam de ser feitas por lei", denunciou Pedro Santos, que pediu ao Governo que "ponha na ordem" os madeireiros e as empresas de celulose, acusados de ficarem com os maiores lucros na venda da madeira.

A questão dos lucros surge também nas conclusões a propósito da atividade dos pequenos e médios agricultores. A CNA acusa as grandes superfícies de imporem preços baixos aos produtores, que ficam apenas com lucros residuais.

"É urgente a regulamentação no setor e uma intervenção musculada da Autoridade da Concorrência, penalizando abusos de posição dominante e de dependência económica", refere a CNA.

A confederação insta ainda o Governo e União Europeia a não desperdiçarem a oportunidade de corrigir os erros da revisão de 2013 da Política Agrícola Comum, defendendo "a valorização do rendimento do trabalho e não o capital investido".