quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cultivar as cidades

As hortas comunitárias conquistam as cidades e ganham novos ocupantes.
Visitámos três hortas urbanas, duas em Lisboa e outra no concelho de
Cascais, e descobrimos quem são estes "agricultores das horas vagas"
Sandra Pinto (texto), Marcos Borga e Álvaro Isidoro (fotos)
21:18 Terça feira, 22 de Fev de 2011
Quando pensamos em hortas, o nosso pensamento afasta-nos das grandes
cidades e projeta-nos para as aldeias. Descobrimos, agora, que estes
novos espaços de cultivo existem bem perto dos residentes de Lisboa e
de Cascais. Estão "escondidos " no meio dos prédios das novas
urbanizações, como é o caso da Horta de Outeiro de Polima (na
freguesia de São Domingos de Rana, Cascais), na movimentada zona da
Graça ou inserida no Parque Monteiro-Mor, que pertence ao Museu
Nacional do Traje, em Lisboa.

Com diferentes ambientes e regras de funcionamento próprias, em todas
elas encontramos utilizadores de todas as idades e ocupações
profissionais, que têm em comum a forte motivação e amor à natureza.
Aqui, a falta de experiência na área da agricultura não é suficiente
para os afastar das enxadas e das foices, seja no verão seja nos dias
mais frios do inverno. Mais do que aquilo que retiram da terra (que
todos confessam ser um complemento saudável à sua alimentação),
trocam-se conhecimentos, experiências e combate-se o stresse. Sem
dúvida, um lugar de trabalho mas também de convívio.

A HORTA DO MONTE
O primeiro residente a chegar à horta localizada num terreno entre a
Rua Damasceno e a Calçada do Monte, em Lisboa, foi Joaquim Lopes da
Silva, 79 anos, reformado há quase uma década da cozinha da Cervejaria
Trindade, em Lisboa. Um dia, ao passear o cão, deparou-se com muitas
pessoas em frente a esta horta. Parou, perguntou e foi convidado a
participar. Mas naquele dia recusou a oferta. Mas quando por ali
passou uma segunda vez, não conseguiu resistir ao apelo e há três anos
que se dedica ao seu talhão e também a ajudar todos os colegas.
De Arco de Valdevez, a sua terra natal, trouxe 26 anos de experiência
de vida dedicada à lavoura, que nem os 34 anos de cozinheiro
conseguiram matar "as saudades de trabalhar a terra". Gosta de aqui
vir quase todos os dias, simplesmente para se entreter e apanhar sol
(mas também vento e chuva). "E sempre faço exercício físico", explica.
Não mede palavras quando fala do seu colega de trabalho alemão, da
parcela vizinha: "Criámos um género de sociedade, onde fazemos trocas
comerciais ", diz, bem-disposto. Luz Bilro, 46 anos, é a segunda
"agricultora " a chegar. Neste momento está a preparar a horta para as
colheitas de verão (em breve, espera vir a semear abóboras, feijão,
alfaces e rúcula). Chegou ali em agosto de 2010 e lá continua a ir
todas segundas, quartas, sextas e sábados. A motivação ganhou-a após
ter participado num workshop na Agrobio, mas quando os vasos da
varanda deixaram de ser suficientes para saciar a sua vontade de
trabalhar a terra, procurou mais e encontrou o que precisava nesta
horta localizada na Graça.
Quem também apareceu foi a norueguesa Astrid Susaas, 27 anos,
socióloga, a viver em Lisboa há três meses. Depois de ter tomado
conhecimento deste espaço, através da internet, não adiou a vontade de
participar na horta comunitária. Sem nada previamente marcado,
apareceu e apresentou os seus serviços, os quais foram aceites, no
momento, pelos colegas. A sua primeira tarefa foi cortar as ervas
daninhas, de forma a criar caminhos, a qual desempenhou com um sorriso
nos lábios.
Mas esta horta não seria a mesma sem a presença de Inês Clematis, a
sua dinamizadora. Sobre esta experiência diz: "É feita das pessoas que
por cá têm passado. E o que nós gostaríamos de preservar é exatamente
esse 'espírito orgânico' que todos os participantes se sintam parte
integrante."
São estes pensamentos que fazem que a "horta esteja mais próxima de um
ritmo de crescimento natural, de acordo com os próprios princípios da
natureza".

OUTEIRO DE POLIMA, CASCAIS
Neste dia apresentaram-se ao serviço Alberto Caetano, 77 anos, Manuela
Viegas, 57, Nadir Pacheco, 53, Guida Marques, 42, e Hugo Henriques de
34. Todos têm em comum um talhão com 15 metros quadrados, na horta
localizada em Outeiro de Polima, no concelho de Cascais. Mas também o
gosto pela terra e a boa disposição. Em poucos minutos percebemos quem
é o elo mais forte desta quinta: Alberto Caetano e foi precisamente
com ele que começamos a conversa.
Como vive a poucos minutos da sua parcela de terra, no verão é
frequente vê-lo por estas paragens, "quase todos os dias". Mas quando
o tempo arrefece e a terra não exige regas frequentes, como é agora o
caso, elege os fim de semana para dar uma espreitadela às suas
culturas.
Mas não é à toa que mantém este protagonismo. Dedicou toda a vida à
agricultura. "Nunca fui um hortelão, fui um produtor de algodão, em
África. Mas também me dediquei ao gado e ao leite cá em Portugal",
avança. Seja pelo gosto de ver e cuidar de plantas (Manuela Viegas),
pelo prazer de estar ao ar livre e no campo (Nadir Pacheco), por já
ter algumas bases nesta matéria (Guida Marques) ou por se dedicar a um
passatempo (Hugo Henriques) a verdade é que estas idas à horta já
fazem parte da rotina de todos os nossos "agricultores". Aqui não se
trocam apenas couves, ervas aromáticas, alfaces, alhos ou cebolas as
experiências valem muito mais do que o "material" trocado. "Na horta
perdemos a noção do tempo", acrescenta a técnica de informática
Manuela Viegas. "E também se ganham amigos", acrescenta o sorridente
Alberto Caetano. Estes motivos, aliados ao facto de os "produtos terem
outro sabor", reforçam a vontade de cultivarem.
No concelho são, ainda, disponibilizadas aos munícipes outras cinco
hortas com propriedades idênticas a esta (em funcionamento estão já as
hortas localizadas no Alto dos Gaios, no Outeiro de Polima e no Bairro
de São João e em Carcavelos, brevemente, vão estar a do Bairro 16 de
Novembro, Alto da Parede e São Pedro do Estoril), todas elas criadas
no âmbito do projeto Hortas de Cascais, da Agenda Cascais 21. Para os
responsáveis Joana Silva e André Miguel, os objetivos passam por
"potenciar o espírito comunitário, promover a sustentabilidade e
dinamizar estes espaços pertencentes à autarquia".
Para se inscrever, precisa ser residente neste concelho (é
obrigatório), pagar uma taxa simbólica de €5, participar na aulas de
formação (quatro sessões de duas horas, duas práticas e duas
teóricas), cumprir as regras estabelecidas no regulamento, assim como
utilizar as técnicas de agricultura biológica.

NÚCLEO DE HORTAS DO MUSEU NACIONAL DO TRAJE
Para Jorge Tavares, 59 anos, as visitas à sua horta são uma verdadeira
terapia. No ano passado, quando recebeu os cerca de cem metros
quadrados para cultivar, não tinha qualquer experiência nesta matéria,
por isso foi necessário arregaçar as mangas e pôr mãos à obra.
Acrescentou à sua rotina novas tarefas, como a pesquisa na internet
(de mais informações) sobre agricultura, especialmente em modo
biológico (a que pratica), mas também fez investigação no terreno. O
que inicialmente começou por ser um "desafio interessante" e uma
"afinidade pela terra" rapidamente se transformou numa obrigação (no
bom sentido). "A terra chama por nós", desabafa. Um "chamamento" que
Jorge Tavares tenta responder sempre que a sua disponibilidade lhe
permite. E a terra parece agradecer o seu esforço e dedicação exibindo
saudáveis colheitas de morangos, pimentos, couves, favas, pepinos ou
tomates, dependendo da época. Se acrescentarmos que esta é a horta
mais bonita, alinhada e bem tratada de todo o núcleo de hortas do
Museu Nacional do Traje, que fica localizado no Parque Botânico do
Monteiro-Mor, chega a ela num abrir e fechar de olhos. E não fomos só
nós a reparar. O arquiteto paisagista Rui Costa, responsável pelo
parque e pela nossa visita, é nosso cúmplice. A "proprietária" do lote
vizinho chama-se Cláudia Furtado, tem 35 anos e trabalha em
farmacêutica. Quando a questionamos porque embarcou neste projeto,
respondeu: "Pelo gosto de trabalhar a terra e cuidar dos legumes que
foram semeados." Sem tom de crítica ou queixa, acrescenta: "Apesar de
trabalhar a terra ser fisicamente exigente, é muito relaxante."
Tal como o vizinho, não foi a crise que a trouxe até aqui, apesar "ser
um excelente complemento, quer por ser fruto do nosso trabalho quer
pelo sabor dos produtos", remata.
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'QUE CADA UTILIZADOR APROVEITE BEM A ÁGUA'

Falámos com Rui Costa, o arquiteto responsável pelo Parque
Monteiro-Mor, e ficámos a saber o que é necessário fazer para se
transformar num agricultor
Como são atribuídos os talhões?
É preciso preencher a ficha de candidatura e participar na licitação
(é fixada uma base por metro quadrado e por ano). Quem licitar o valor
mais elevado tem mais hipóteses de o receber (em caso de empate é a
proximidade da morada de residência que dita o selecionado).
Quais são as principais regras de funcionamento?
Não pode abandonar o terreno, nem vedá-lo (é um parque aberto ao
público). É obrigatório que cada utilizador faça uma boa utilização e
aproveitamento da água proveniente das nascentes do parque e não é
permitido cultivar árvores e arbustos.
Quando se realiza o próximo concurso?
Em setembro.
Quantas parcelas existem?
Atualmente, em cultivo, existem cerca de 30 talhões, com dimensões
entre os 40 e os cem metros quadrados.
Quais são as culturas mais utilizadas?
Couves, alfaces, favas, cebolas, nabiças, feijões, tomate, morangos,
ervas aromáticas, groselhas, framboesas e maracujá.

PARQUE AGRÍCOLA DA ALTA DE LISBOA
DR
As inscrições para os cerca de 200 talhões de terra para cultivo do
futuro Parque Agrícola da Alta de Lisboa já estão abertas (
avaal.geral@gmail.com ).
A gestão dos dois hectares, pertencentes à Câmara Municipal de Lisboa,
foi entregue à Associação para a Valorização Ambiental da Alta de
Lisboa, que contou com a ajuda da empresa de arquitetura paisagista
Biodesign para a sua projeção. As diferentes dimensões dos talhões
(com 25, 50, 75 e 100 metros quadrados) permitem aos futuros
utilizadores praticarem uma agricultura de recreio ou de complemento
ao rendimento familiar (existe a possibilidade de venda de excedentes
num mercado local), dependendo das suas necessidades. Assim, a partir
de setembro (data prevista de abertura) nestas parcelas poderão ser
cultivadas plantas aromáticas, medicinais e hortícolas, em modo de
produção biológico (vão ter o apoio da Agrobio). O preço pelo usufruto
destas parcelas ainda está a ser discutido com a autarquia local.

A partir de dia 7, a família Mata vai entrar em sua casa.
http://aeiou.visao.pt/cultivar-as-cidades=f589940

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