quarta-feira, 25 de maio de 2011

Abutres atacam rebanhos

25 de Maio, 2011Por Andreia Félix Coelho e Sónia Balasteiro
Os agricultores da Beira Interior estão desesperados por os abutres
lhes estarem a comer gado vivo. E culpam o Governo por não ter ainda
licenciado campos próprios com carcaças para os abutres se
alimentarem, nesta zona do país. É que, ao mesmo tempo, aquelas aves
são espécies protegidas, o que impede os agricultores de as abater.
«É um sofrimento horrível para os animais e, quando vemos o ataque,
não podemos fazer nada porque os abutres são aves enormes e
protegidas», conta ao SOL Palmira Gonçalves, presidente da Associação
Regional de Agricultores Biológicos, de Penamacor (Guarda), adiantando
que nas últimas semanas são várias as queixas dos produtores de gado
sobre o assunto.


As situações ocorrem em produções animais da Beira Baixa, mas também
no norte do Alentejo. E só no último mês, por exemplo, chegaram duas
queixas ao Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) do
Fundão.
Palmira Gonçalves recorda que, há cinco anos, já tinha acontecido o
mesmo: ««Em 2006, fiquei sem 90 ovelhas. E agora, há duas semanas,
voltei a ver abutres a atacar uma ovelha».
A responsável critica ainda as autoridades por nunca a terem
compensado pelos prejuízos.
Os agricultores garantem que os ataques aos rebanhos provocam graves
perdas financeiras, sobretudo nos tempos de crise que vivem. E exigem
que o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade, da tutela
do Ministério do Ambiente, licencie rapidamente os dois alimentadores
(zonas próprias e delimitadas com gado morto para os abutres _se
alimentarem), que estão fechados por falta de licenciamento.

Falta de plano estatal
Desde 2002, ano em que surgiu a BSE (conhecida como a doença das vacas
loucas), a União Europeia (UE) impôs que todas as carcaças de animais
fossem recolhidas pelos agricultores. A medida deixou, no entanto, os
abutres com mais dificuldades em alimentar-se, correndo o risco de
morrer à fome.
Após queixas de vários países, o Parlamento Europeu aprovou a criação
de campos de alimentação nos quais seriam depositados «corpos inteiros
de animais mortos».
Estes 'alimentadores de abutres' teriam de ser licenciados pela
Direcção-Geral de Veterinária (DGV) – só que as licenças estão
suspensas à espera de um plano do Instituto de Conservação da Natureza
e da Biodiversidade (ICNB), que «já deveria ter sido feito há anos»,
como denuncia Samuel Infante, responsável pela conservação destas aves
no Parque do Tejo. «Em Espanha este plano tem quatro páginas e é muito
simples», garante.
Além de prejudicar os agricultores, a falta de medidas do Governo pode
também levar à morte de abutres, avisa Samuel Infante, responsável do
CERAS ligado à conservação destas espécies no Parque Natural do Tejo
Internacional (PNTI).
O desespero acaba por levar alguns produtores de gado a querer 'fazer
justiça pela próprias mãos'. O responsável lembra o que aconteceu em
2003, quando 30 destas aves em perigo de extinção foram envenenadas
após ataques a rebanhos. Na altura, o processo acabou arquivado por
não se encontrarem os responsáveis, lembra Samuel Infante. «Já há anos
que alertamos o ICNB sobre as queixas dos proprietários de ataques de
abutres aos rebanhos e no perigo que isso podia representar para as
espécies», conta.
Mas, até agora, nenhuma estratégia foi implementada. E o ICNB admite a
falta de um plano. « Está previsto que a Estratégia para a Conservação
das Aves Necrófagas_em Portugal (2011-2020), seja adoptada
brevemente», assumiu ao SOL a assessora do organismo, Sandra Moutinho.
Admitindo que «subsistem problemas com os dois alimentadores
instalados na área do PNTI», o ICNB diz que ainda não licenciou os
locais por estar à espera de um parecer da DGV.
A DGV, por seu lado, não prestou esclarecimentos.
andreia.coelho@sol.pt
http://sol.sapo.pt/inicio/Vida/Interior.aspx?content_id=20055

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